Um pouco de filosofia moral

Um pouco de filosofia moral

As nossas conversas com o nada, o nosso mutismo ante o real

Abordam a ilusão que nos cerca, a ilusão da matéria que nos envolve e nos faz crer que o que vemos e sentimos de uma forma geral é real, e cegam-nos para a verdadeira realidade.

As nossas conversas com o nada significam exatamente a nossa super valorização com relação ao nada, à ilusão, ou seja, a supervalorização dos problemas do nosso cotidiano, o dispêndio de cargas e cargas de energia com problemas voltados à matéria, enquanto nos esquecemos que temos um lado espiritual que é nossa porção imortal e indivisível.

Como dizia Plotino, o homem tem duas opções na vida: ou é materialista ou é espiritualista; o dito de Maomé sobre a impossibilidade de se montar em dois camelos ao mesmo tempo traz o mesmo ensinamento; são os movimentos das asas da borboleta, Vênus Urania e Vênus Pandemos, ora voltada à matéria, ora voltada ao espírito; no entanto, o que tem ocorrido na atual fase da evolução humana é que atrofiamos nosso lado espiritual, tamanho é o nosso envolvimento com o nada, com a ilusão, com a matéria pela matéria.

Não quero dizer que não precisamos da matéria; ora, mas logicamente necessitamos dela, e não é por outro motivo que estamos encarnados. Digo apenas que não podemos tê-la como fim em si mesma, e sim como um meio de aprendermos, de através dela, tendo uma relação consciente com os problemas, podermos atingir a alma, limpando-a de suas sujeiras, vícios, etc.

Não devemos valorizar a matéria pela matéria, assim não nos cansamos tanto e podemos aplicar nossa energia no que efetivamente vale a pena: no real, naquilo que transcende.

Thamas (inércia) e suas vítimas. Thamas e seus verdugos

Thamas é o referencial hindu da inércia, do não-movimento.

A inércia é a base da negligência no homem, e muitas vezes de difícil identificação, pois não se trata somente de ficar parado, deitado – embora também se manifeste assim -, mas abrange o nosso comportamento de não terminarmos o que começamos, de não darmos continuidade a uma idéia ou a uma ação já começada, de não darmos o devido acabamento às coisas, de deixarmos para amanhã o que podemos fazer hoje, ou ainda postergarmos sem limites o início dos nossos projetos. Tudo isso é inércia, é Thamas.

A inércia tem feito muitas vítimas em função da nossa entrega às tendências do quaternário (eu inferior do homem), ou seja, não encarnamos a alma de forma que esta possa mandar no corpo e utilizá-lo como ferramenta ao que deve ser feito. Neste sentido, somos vítimas de Thamas.

Iniciar muitas coisas ao mesmo tempo e não finalizá-las também é inércia. Muitas vezes n achamo-nos muito ativos, quando, na verdade, estamos aprofundados na inércia, pois, temos a sensação de que estamos realizando muitas coisas, mas, nada temos  terminado, e nada do que estamos fazendo tem objetivo.

A inércia é uma das qualidades da matéria e não é boa nem ruim: depende exclusivamente de como a utilizamos, do elemento vontade, inteligência que discerne e comanda o corpo.

Do mesmo modo, igual inimigo é Rajas, o inverso, a outra qualidade da matéria, o movimento. Pois bem, incorre em igual erro aquele que produz muito, mas não as coisas certas, não com a consciência desperta com relação ao que faz, uma vez que produz mecanicamente. Não se trata de produzir muitas coisas dentro do mundo fenomênico, e sim de produzir as coisas certas para termos as experiências certas de que precisamos. Mesmo que haja qualidade material, não deixa de ser energia lançada fora, pois, se não há consciência na ação, consequentemente não há evolução.

Portanto, temos de buscar Satwa (o caminho do meio), a harmonia, a terceira qualidade da matéria, o equilíbrio. Em outras palavras, não devemos ficar inertes nem desperdiçar energia com o que não precisa ser feito, mas gastar o justo com o que precisa ser feito, estando presente de corpo e alma na atividade.

Viveka (discernimento) e os magos do Budham

Viveka é discernimento, é a qualidade de poder discernir o verdadeiro do falso, o bem do mal, a vida da morte, ou seja, poder enxergar além da dualidade, da ilusão.

Este discernimento é representado para os hindus pelo cisne negro, aquele que consegue separar o leite da água, o leite representando o mundo espiritual e a água representando a matéria, a ilusão.

O discernimento está intimamente ligado à evolução consciencial, isto é, o aclaramento da mente; é a grande virtude que o homem pode alcançar, é a verdadeira liberdade, pois só é livre para escolher aquele que tem a faculdade de discernimento, que consegue enxergar com clareza as coisas para então poder optar por uma delas. Esta opção significa comprometimento verdadeiro, pois, se a escolha é livre, ninguém podemos culpar  pela nossa opção. Este é o exercício do livre arbítrio.

O discernimento se consegue a partir de uma nova postura de colocação da consciência, fazendo-a  deslocar-se para a alma e não para o quaternário, de forma a posicioná-la no ego superior, na nossa parte imortal.

O homem e seus instintos

O homem, conforme a filosofia clássica, é composto por diversos corpos que trabalham em conjunto, e é também dividido em sete partes, das quais só temos em atividade quatro, sendo que as outras três ainda estão latentes. Trata-se da divisão septenária, constituída pelos corpos físico, vital, emocional, mental concreto, mental puro, búdico intuitivo e atma, e cada um destes corpos possui vida e tendências próprias.

Compara-se o homem a um edifício de sete andares, dos quais os quatro primeiros estão habitados e cada um destes habitantes quer o melhor para si, ou seja, há um conflito de interesses – muito embora exista uma hierarquia entre eles, sendo o mental o mais poderoso e influente.

No quinto andar mora um habitante ainda não conhecido, que ainda não despertou e que é dominado pelos demais, já que ainda não tem forças de manifestação e não consegue  impor-se sobre os outros; no entanto, com o desenvolvimento do homem, ele vai crescer e dominar os demais e, a partir desse momento, sim, haverá ordem na casa.

Este é o grande problema do homem atual que vive em dúvidas, em conflito. Isso acontece porque cada um dos seus corpos pede algo – e normalmente coisas antagônicas -, surgindo então as dúvidas e os desperdícios de energia. Estes são os instintos do homem, são suas paixões, que fazem sua ligação com seu eu animal, sua herança.

Os instintos manifestam-se em maior grau quanto menor for o poder de comando sobre o quaternário.

E como pôr ordem na casa? Ora, estabelecendo um ideal, um arquétipo, e buscando-o. Isso, em outras palavras, é encarnar a alma, que no momento atual está parcialmente encarnada, sendo que o ideal é encarná-la por completo. Contudo, isto se faz aos poucos, com o domínio de cada corpo, e como nosso próximo desafio é o mental puro, ou Manas, é ele a quem devemos buscar para que ele possa subjugar os demais.

A isto chamamos de alinhamento, que vem a ser a colocação de todos os corpos e seus instintos numa mesma direção. Trata-se do ato de ENDIREITAR A FLECHA, educar os instintos de forma que trabalhem para um mesmo objetivo – a evolução, que no nosso presente momento é encarnar o Manas, desenvolver nossa mente altruísta.

Se não fizermos isto por vontade própria, a Natureza levar-nos-á a fazer pela dor. Isto é a dor como veículo de consciência, como ferramenta que nos faz sair de uma situação cômoda e buscar novas situações, sendo esta a função da matéria, ou seja,  impor-nos situações que nos despertarão a consciência para a próxima etapa evolutiva.

Nossos instintos são nossos vícios, herança do nosso eu animal. São enraizados e fortes, e temos de dominá-los; caso contrário, eles nos dominarão. Para tanto, temos de usar a inteligência, não lutar no seu campo de batalha, utilizar nossas melhores armas e destruí-los pela fome – muito embora tenhamos em mente que destruí-los não significa eliminá-los, pois fazem parte de nós mesmos enquanto estamos na fase humana; significa, na verdade, adestrá-los, educá-los e, assim, todas as nossas dúvidas se dissiparão.

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