Um mundo novo

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Um mundo novo

Um mundo novo

Houve um grupo de homens expedicionários que certo dia traído pelo seu excesso de confiança acabou por se perder em uma floresta nas montanhas, e por mais que tentasse trilhar o caminho de volta, jazia em infrutíferas tentativas. Esses homens já se encontravam bastante desesperados quando decidiram se orientar pelos astros, porém, acabaram se deparando com um grande obstáculo na única trilha que os poderia levar ao caminho de volta. À frente deles encontrava-se um profundo precipício.

Desanimados, olharam para baixo e perceberam que aquele precipício representava praticamente a morte de todos. Não tinham mais como voltar e os alimentos já se faziam escassos para nutrir a todos, portanto, mais cedo ou mais tarde acabariam morrendo de fome e frio.

Não obstante a dificuldade, todos queriam a mesma coisa, ou seja, salvar-se daquela situação que a cada dia mostrava-se uma tragédia mais iminente. Assim sendo,  após observar atentamente o precipício, um deles lançou a idéia de construírem uma ponte de forma que pudessem ultrapassar aquele obstáculo e lograr êxito no caminho de volta para casa.

Porém, diante da idéia lançada, o grupo se dividiu em dois: parte dos homens viu na idéia a salvação de todos, inclusive a própria, enquanto que a outra parte refutou a idéia, chamando quem a teve de louco e utópico, pois acreditava ser impossível a construção de uma ponte ou qualquer outro artifício que pudesse levá-los à outra margem da montanha. Ademais, achavam mais prudente reservar as energias e poupar a alimentação, a fim de que pudessem ficar ali o maior tempo possível no aguardo de um grupo de resgate que os encontrasse.

Desta forma, o grupo que havia se decidido pela ponte identificou o que precisaria ser feito e iniciou os trabalhos sob os olhos espectadores daqueles que não concordaram com a idéia. Puseram-se a procurar troncos de árvores caídas, galhos e outros apetrechos que pudessem ser úteis na construção da ponte, porém, a mata fechada e carente de troncos dificultava o trabalho ao máximo, uma vez que não dispunham de ferramentas adequadas ou quase nenhuma, o que os fez perceber que precisariam ser ecléticos se quisessem driblar as dificuldades. Isto os fez descobrir folhas de paineiras que podiam ser trançadas a fim de confeccionar cordas, porém, tinham de selecionar as folhas certas, bem como, eram raros os pés de paineiras naquela floresta, o que tornava o trabalho quase impossível para aqueles homens determinados. Contudo, não desistiram e,  com muito esforço, por fim conseguiram trançar uma corda que chegou um pouco além da largura do precipício, mas a corda era frágil e nos testes demonstrou não suportar um homem pesado.

Abandonada a idéia da ponte de madeira, decidiram que fariam a travessia um a um.  Esticaram a corda sobre o precipício e cada um, com suas próprias forças, foi apoiando-se na corda de forma a galgar aos poucos  a outra margem. Não obstante ser a corda fraca e não suportar muito peso, todos aqueles que por dias subiram e desceram das paineiras, teceram por horas, enfim, trabalharam pelo seu ideal, evidentemente perderam muito peso e calejaram as mãos, de forma que a corda os suportou um a um e que puderam com suas mãos calejadas tracionar o peso do próprio corpo pela corda.

Porém aqueles que ficaram contemplando, no aguardo de uma salvação que viesse dos céus, não tiveram a mesma sorte, pois a corda não suportaria seus pesos, bem como não tinham as mãos suficientemente calejadas para a travessia.

Este conto nos traduz a figura do filósofo idealista, do buscador da sabedoria e de um mundo novo e melhor, pois raros são aqueles que no mundo de hoje, que podemos chamar de velho, não estão descontentes com o que vêem e vivem, sendo que não faltam queixas a respeito da ineficiente educação a nós oferecida, da falta de saúde, da crescente criminalidade, da má distribuição de renda, das diferenças sociais e de oportunidades, do desemprego, das injustiças, da falta de um governo verdadeiro que tenha por objetivo a evolução consciencial  da população e não a sua manipulação para seu próprio proveito, do crescente egoísmo e outros fatores que nos fazem entender que algo precisa mudar, e que precisamos reconstruir o mundo a iniciar por um alicerce sólido.

Porém mesmo concordando com isto, muitos optam por apenas contemplar, aguardando que os outros construam este mundo novo e melhor, para que depois de pronto sejam estes convidados a ingressar nele. Mas a exemplo do conto acima, somente poderão entrar e desfrutar deste mundo aqueles que de certa forma conscientes contribuírem para a sua criação, pois durante esta construção estes homens perderão peso, ou seja, se expurgarão de tudo o que não lhes é natural, quer dizer, dos seus vícios, seu lado animal, tornando-se mais puros para que possam então viver num mundo mais puro, já que somos nós mesmos que fazemos o mundo.

Aos que optarem por apenas contemplar, não lhes será possível a passagem enquanto também não se tornarem puros e isto somente é possível através de uma inteligente relação com a matéria, ou seja, o trabalho com consciência, sabendo que a cada dia estamos tecendo um pedacinho da corda que nos proporcionará a ponte para este mundo novo e melhor.

De uma forma ou de outra temos que nos decidir por um dos caminhos, ou somos filósofos ativos ou somos observadores passivos.

De qual grupo você faz parte?

 

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