Traição

Traição

TRAIÇÃO

 

Nas nossas relações sociais sejam de relacionamentos íntimos ou ainda de amizades e/ou profissionais, é bem comum ouvirmos queixas oriundas de alguém que se diz vítima de traição por parte de outro, em especial alguém em quem se depositou confiança e expectativa. Ou ainda, por que não, nós mesmos nos sentirmos traídos pelo comportamento de outrem o qual não concordamos e por fim rotulamos como uma “traição”.

Neste artigo procuraremos explorar um pouco mais sobre a raiz do termo traição, que hoje é um conceito fechado no contexto de alguém romper com as regras de um trato, de uma promessa ou contrato.

Vejamos abaixo outras maneiras e pontos de vista que poderão contribuir para ampliarmos e aprofundarmos o conceito do que seja traição.

 

  • Toda promessa encerra em si uma mentira – Observemos que quando firmamos um contrato, os compromissos ali assumidos valem como verdadeiros tendo em conta que as condições iniciais do contrato prevaleçam as mesmas, premissa esta que consta no nosso ordenamento jurídico, que prevê se mudadas as condições, as quais foram o contrato firmado entre as partes, suas cláusulas de direitos e obrigações ficam prejudicadas, recomendando-se que sejam repactuadas ante a nova realidade dos fatos.

Dentro do contexto filosófico a ideia não é diferente, pois o que afirmamos hoje pode não ser viável amanhã, já que a realidade não é fixa e sim móvel: Tudo muda a todo tempo.

O filósofo pré-socrático Heráclito pronunciou o famoso pensamento atemporal:

 

“ Um homem não pode se banhar duas vezes no mesmo rio, pois nem ele nem o rio serão os mesmos.”

 

Sendo o futuro incerto, vez que este não depende somente da nossa vontade, pois inclui diversos outros fatores conjuntos que interagem segundo a vontade do parceiro(a) ou de terceiros, os quais no exercício do seu livre arbítrio fazem suas próprias escolhas,  escolhas estas que fogem ao nosso controle, como então podemos firmar promessas eternas se a realidade dos fatos não é permanente?

A realidade é viva, a História é feita a cada momento, a mesma intenção pode gerar ações aparentemente opostas: podemos prometer jamais matar, porém ante uma condição extrema podemos romper a nossa palavra, de forma que nada no mundo manifestado é fixo, somente os arquétipos são fixos, ou seja, a ideia de não trair não está contida na promessa de fazer ou deixar de fazer algo, e sim no conceito profundo do que seja ético e moral.

 

  • Expectativa x Traição – Observem ainda que indevidamente nos nossos relacionamentos, imputamos às outras pessoas um comportamento que na prática é o mais adequado e favorável a nós mesmos, e quando o outro não se comporta de acordo com aquilo que imaginamos e determinamos como adequado, seja por que motivo for, rotulamos este comportamento como uma “traição”.

Na verdade nossos interesses egoístas somente nos permitem ver a nossa verdade, raramente conseguimos aplicar a empatia para perceber a realidade do outro. Para isso, necessário se faz abandonarmos pelo menos em parte os nossos interesses e a nossa visão egocêntrica. Isto nos permitiria ver a questão por um outro ângulo de vista, o que nos conduziria a uma compreensão e maior aceitação do comportamento alheio, mesmo que este não corresponda às nossas mais profundas expectativas do que seja o certo e o errado.

Nossas expectativas são formadas a partir de uma projeção do nosso próprio EGO, ou seja, criamos uma realidade própria e adequada aos nossos próprios interesses. Isso, numa relação entre duas pessoas, pode perdurar até que a realidade pessoal de um deles se altere divergindo do que até então era convergente.

 

  • A falsa ideia da traição – Uma vez frustrados os nossos interesses pessoais dentro de uma relação de amizade, social, profissional ou amorosa, nosso frágil e mau educado “corpo emocional” é bombardeado pela ideia fixa a qual podemos chamar de “crença”, que formamos sobre a outra pessoa. Ora!, se alguém  trai a tua confiança por não te pagar um valor emprestado, este não era desde sua origem, o risco embutido na ação de emprestar dinheiro? Se alguém conta um segredo o qual prometeu e jurou pela sua própria vida jamais torná-lo público, este não era o risco implícito de se confiar um segredo a outrem?

Assim, esta visão de ser traído não contempla apenas um lado, muito embora insistamos em manter uma visão unilateral sobre a questão, não obstante o comportamento alheio não poder ser definido por nós, devemos levar em conta que cada indivíduo é uma realidade à parte, com seus conflitos, virtudes, vícios, etc.

 

  • O vitimismo – O próprio conceito de afirmarmos que fomos traídos coloca-nos automaticamente numa posição confortável de vítima e, como vítima, não precisamos mudar, passamos a ser a parte frágil e digna de atenção e piedade, a partir de então somos os “coitadinhos”. Este não é outro senão o comportamento doentio do nosso EGO, que busca sempre chamar atenção para si mesmo, vez que sua natureza é egocêntrica, e ao mesmo tempo desvia o foco da nossa consciência que deveria estar em nós mesmos, contudo, agora está no “traidor” ou seja, fora de nós, pois nos restringimos a acusar e culpar alguém pelas circunstâncias negativas que nos envolvem. Ótimo para o EGO pois agora que já temos um culpado não precisamos nos preocupar em agir sobre as causas dos problemas. Desta forma, paralisamos a nossa evolução e o EGO terá cumprido a sua missão que é manter-nos inconscientes sobre quem verdadeiramente somos.

 

  • A traição conjugal – A mais polêmica forma de traição encontra-se na relação amorosa entre dois parceiros que decidem se casar, ou ainda, apenas ensaiam para assumirem uma relação mais séria e compromissada. Ocorre que normalmente partimos do raciocínio de que a instituição casamento é monogâmica e, a partir daí, tecemos nossos parâmetros de relacionamento, sem contar que, na grande maioria das relações as quais chamamos de amorosas, em verdade não passam de relações de paixão, posse e domínio de um sobre o outro, associada com interesses da própria personalidade que busca locupletar-se do outro ao invés de somar-se ao outro com o seu melhor.

Porém, para quebrar a crença ocidental da monogamia, temos a realidade de outros povos do passado e também contemporâneos que convivem bem com a poliandria ou a poliginia, não descartando a relação monogâmica.

Ocorre que como sempre passamos a ser reféns de ideias e conceitos formais os quais não questionamos, simplesmente os aceitamos como verdade absoluta, e por que não dizer, os aceitamos como dogmas.

Observem que na realidade de um casamento, trair consiste em quebrar um pacto previamente feito, e que não necessariamente é monogâmico, isto por si só torna a visão da traição pelo senso comum relativa quanto à sua ideia e definição.

Na verdade, a dor de ser traído advém da imputação de um sentimento de perda da posse e controle sobre o outro, não importando os motivos que o levaram a praticar o ato, ou seja, a dor da traição é no fundo uma exposição das nossas fraquezas como SERES incompletos e carentes de virtudes.

Destarte, um ser humano com maturidade emocional, com a consciência firmada no seu verdadeiro SER, onde passa a independer da opinião alheia, onde não busca nas suas relações o domínio nem a posse sobre as outras pessoas, que compreende e aceita as fraquezas dos demais assim como aceita suas próprias fraquezas, não haverá de ter ciúmes e compreenderá que não há como trair ou ser traído, já que trair o outro no fundo é trair a si mesmo. Não há como trair outro sem antes ter traído a si mesmo. O que chamamos de traição na verdade são ações fruto ainda da nossa incapacidade de escolher o melhor para nós mesmos, todos nós queremos o melhor, porém poucos têm a elevada consciência de fazer estas escolhas com superioridade de alma.

No sentido elevado do conceito da palavra “traição” podemos considerar que todos nós somos traidores: traímos a nossa vocação quando deixamos de doar o melhor de nós ao mundo; traímos a nossa condição humana quando agimos com desumanidade; traímos nossos filhos quando deixamos de ser verdadeiros pais; traímos nossos pais quando negligenciamos nossas funções de bons filhos; traímos nossos cônjuges quando falhamos conosco mesmo na busca do nosso melhor o qual pudéssemos doar na relação.

Quem nunca traiu que atire a primeira pedra!!!.

4 Comments

  1. O texto é muito bom, a verdadeira traição é quando traímos a palavra empenhada, quando deixamos de nos lembrar o que nos faz humanos(nossa consciência, nosso inconsciente, nossas virtudes, nossas fraquezas, nosso ego, nosso ID, nosso superego, o que nos determina e nossas possibilidades de emancipação).

  2. Gostei muito do texto. Concordo que a ideia de traição é fruto do ego e do fato de encarar a perda da posse. Ao ser traído, o indivíduo, de fato se coloca numa situação de vítima, onde novamente se destaca o ego se manifestando.

  3. Olá, uma dúvida, e quem seria o culpado o homem ou a mulher?

  4. Olá, Marjory!
    O texto coloca a questão além não dando espaço do apontamento de culpa.
    Sds!

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