Objetividade x Prolixidade

Objetividade x Prolixidade
Objetividade

Objetividade

Ser objetivo ou prolixo são características que normalmente passam despercebidas no cotidiano e, quando muito, são atribuídas simplesmente a uma mera forma de ser.  Eu sou assim mesmo!  Esta é a minha forma de ser. Afirmações que selam qualquer outro questionamento sobre o que de fato é ser objetivo ou prolixo, ou ainda, quais são os motores que nos levam a agir desta ou daquela forma, o que se esconde  detrás da prolixidade ou da objetividade.

Vamos neste artigo procurar esmiuçar um pouco mais, sob o enfoque esotérico, o que significa ser objetivo ou ser prolixo.

A objetividade não se detém apenas no ato de falar sem redundâncias, mais sim adota uma maior amplitude, atingindo todas as ações do homem, seja o ato de falar, de agir, de escrever, de pensar e tudo o que envolve uma atitude mental, de forma que estes também são os campos onde se manifesta a prolixidade.

Ser objetivo exige muito mais do que se possa em primeiro plano imaginar. Não basta querer ser, é necessário ter idéias claras, saber o que se quer, ter claro o alvo da busca. Além disto, faz necessário dominarem-se os meios pelos quais se age, seja a fala, seja a tecnologia requerida para a ação. Exige o domínio da nossa psique (mente e emoção), de forma que não haja fatores impeditivos para a concretização eficaz do que se busca e, por último, a vontade, que pode ser entendida como o impulso justo para a ação, na justa medida, nem mais,  nem menos.

Dominar estes fatores parece ser simples, porém, podem levar vidas inteiras para serem lapidados, pois fazem parte de uma construção interna, estão intimamente vinculados aos valores da alma.  Um homem que tem idéias claras, que domina a forma de fazer e que tem a vontade justa é senhor de si mesmo, é o político de si mesmo, pois está em harmonia com a própria natureza.

A objetividade implica o não desperdício e, se pararmos para observar a natureza, certamente,  chegaremos à conclusão de que tudo o que é natural é objetivo, não há desperdícios, é elaborado na medida justa. Isto está coerente com os arquétipos das formas, são os arquétipos divinos manifestando-se. Como dizia Pitágoras, o Universo é geometrizado, Deus geometrizou quando criou a manifestação, de forma que em toda esta geometria não há lugar para sobras ou carências de formas, tudo está devidamente encaixado,  num processo de autossustentação.

Se entendermos a lógica da manifestação do universo, entenderemos o porquê da eletricidade ou da água  sempre procurarem  os caminhos com menor resistência. Esta é a ordem natural, o que jamais pode ser confundido com negligência ou preguiça.

A negligência ou preguiça são a manifestação da não objetividade, do desperdício de energia através da inação ou da ação errada. Voltando ao exemplo anterior da água e da eletricidade, observamos que ambas ao procurarem o caminho mais fácil não objetivam  retardar a ação, muito pelo contrário,  fazem-no objetivando a própria ação em si,  não desperdiçando energia que gastariam percorrendo um caminho mais resistente, de forma a utilizá-la mais adiante para atingir o seu destino natural.

A falta de objetividade não é inerente à ação, mas sim àquele que age, provocada pelo descompasso interno de quem age e que se reflete na prolixidade. Por isto, ela se manifesta em todos os campos da ação humana, seja na conversa repleta de rodeios desnecessários,  seja nas ações que percorrem o caminho mais longo ou em qualquer outro plano.

A prolixidade é um dos principais motivos que nos levam ao cansaço desnecessário, já que implica desperdício de energia constante, que nos mina as forças vitais, deixando-nos exaustos no final do dia e, ao mesmo tempo, com uma sensação de ter feito muitas coisas e ao mesmo tempo não ter feito algo eficaz.  Esta sensação é o reflexo direto do nosso ego superior questionando-nos sobre como temos utilizado nosso corpo, que nada mais é do que uma ferramenta a ser utilizada na plasmação do nosso ideal, ou seja, em face de não mantermos nosso ideal bem claro, nós naturalmente tendemos a nos desviarmos do caminho da ação que nos conduz a ele.  Assim como um barco, que se desgoverna ficando sem direção certa, desperdiçará muita energia até que restabeleça seu rumo,  assim ocorre conosco.   Somos a todo instante tentados a nos desviarmos do nosso caminho pelas tendências da personalidade,  falando mais que o necessário, ou para mostrar intelectualidade, ou para se projetar na vida alheia ou, por falta absoluta de noção de desperdício,  lançamo-nos às conjecturas inúteis que nos roubam nosso precioso tempo.

A falta de objetividade na ação, na maioria dos casos, envolve, além da carência de objetivos claros, também a  falta de planejamento na ação, permitindo os atropelos que poderiam ser perfeitamente evitados.

Estes fatores reunidos fazem toda a diferença no cotidiano. Enquanto o homem objetivo se aproxima rapidamente dos seus fins, constrói coisas, é mais alinhado psicologicamente, é mais realizado como homem, o prolixo perde-se diante de tantos atropelos, desperdiça suas energias com inutilidades, não tem produtividade no que faz, vive cansado, não tem governo sobre seu tempo, está sempre atrasado, apressado, dividido, distante do seu eixo e, por mais que faça, quando se predispõe, ao final do dia, a relacionar o que fez, surpreende-se pois, na grande maioria das vezes, nada fez, ficou girando em círculos como alguém submetido a um redemoinho, conduzido não por sua vontade, mas por forças externas que o afastaram um pouco mais do seu ideal e de seus objetivos.

Ser objetivo exige, antes de tudo, traçarmos um ideal para as nossas vidas e conduzi-las segundo este ideal, alinhar o que falamos, pensamos e fazemos conforme este ideal, desenvolvermos a nossa atenção para fiscalizar todos os atos da nossa vida e sempre nos questionarmos sobre o que pensamos, falamos e fazemos, passando por um crivo mental através das seguintes indagações:

–         Preciso, mesmo, pensar, ou fazer ou falar isto?

–         Isto contribuirá com meu desenvolvimento?

–         Isto contribuirá com o desenvolvimento de alguém?

–         Há uma forma mais simples de se chegar ao mesmo resultado?

Estas indagações, por simples que pareçam, têm o potencial de chamar a nossa consciência para o que estamos fazendo, não permitindo que a nossa psique nos roube a luz que ilumina o caminho reto.

A filosofia Budista, deixada pelo mestre Shidarta Gautama, o Buda,  traz-nos  o nobre óctuplo caminho, a ser seguido por aqueles que buscam a iluminação. Se analisarmos seus  preceitos, eles são o caminho do não desperdício, como por exemplo a reta palavra, o reto pensamento e a reta ação, que nada mais são do que o compromisso de falarmos, pensarmos e agirmos somente na medida justa do necessário, aquilo que, de alguma forma, contribuirá no crescimento de nós mesmos e da humanidade.

A medida justa é o caminho do meio, que encerra a resposta do Budismo para a libertação do homem. O caminho do meio é o perfeito equilíbrio entre as forças opostas, é a busca do equilíbrio, que consiste na superação da dualidade. Este é o homem objetivo aquele que, mesmo buscando a perfeição no que faz, não emprega menos energia no trabalho porque sabe que esta se faz necessária para plasmar seu ideal. Entretanto, sabe que a busca da perfeição acima do necessário é a própria imperfeição. Assim, consegue, através do não desperdício, atingir seu ideal, pôr-se a serviço da humanidade, pois percebeu que ser objetivo é muito mais que simplesmente não desperdiçar energia, ser objetivo é agir pelo dever, cumprir o dharma humano. A objetividade é a qualidade dos homens felizes.

Quando falamos em ser objetivo não afastamos a necessidade do descanso, da interiorização do homem, da convivência, do lazer, como a princípio possa parecer, pois tudo isto faz parte da vida e é tão necessário quanto a  noite, porém não como um fim em si mesmo, mas como parte de um todo, que também deve estar harmonizado por um ideal. Entregar-se por completo a uma vida de lazer é como perpetuar a noite.

Alertamos para a coexistência entre o ser prático sistemático sem ideal, que muito embora seja objetivo em muitas coisas, incorre no mesmo erro do prolixo sem ideal. Ambos não chegam a lugar algum. O primeiro desperdiçará a energia não gasta com qualquer outra futilidade que nada acrescentará à alma, pelo simples motivo de não ter um ideal transcendente; o segundo sequer terá energia para gastar, o muito que o espera é uma cama para desfalecer numa profunda hipnose.

Portanto, antes de reclamarmos que não temos tempo, que as coisas para nós são mais difíceis que para os demais, façamos nossa autoanálise sobre o que fazemos e como fazemos. Arrisco-me a afirmar que, tão logo iniciemos mudanças em nossas vidas, sobrar-nos-ão energia e tempo para coisas maiores, que hoje deixamos para os outros fazerem, coisas que fazem a história da humanidade e que de fato importam, que verdadeiramente dão sentido à nossa existência e que acabamos deixando de lado pela nossa excessiva prolixidade.

“A OBJETIVIDADE APORTA À SABEDORIA E VICE-VERSA, A PROLIXIDADE APORTA À IGNORÂNCIA E VICE-VERSA”

3 Comments

  1. Olha que texto maravilhoso…até parece um dos seus!

  2. Leituras boas tem que ser divididas entre os amigos.

  3. Sensacional, ontem recebi uma resposta negativa pela prolixidade, esse texto me ajudou a entender, muito obrigado por compartilhar

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