Negligência

Negligência

O que podemos entender por negligência?

Se você pensa que negligência é aquela indolência que domina nosso corpo, creio que está certo; no entanto, esta é apenas uma de suas formas.

O termo “negligência” tem sua origem na palavra latina “negligentia”, cujo significado é falta de cuidado, de aplicação, de exatidão, descuido, incúria, displicência, desatenção, preguiça, indiferença.

A negligência tem por origem uma das qualidades inerentes à matéria, que é a inércia, a mesma inércia que estudamos em física no ensino médio e fundamental. Para entendermos como ela funciona, faz-se necessário compreendermos que ela não somente atua nos corpos físicos mais sólidos, como também nas formas sutis de matéria, tais como o som, o pensamento, as ondas de rádio etc.

A inércia não é boa nem má: sua natureza, assim como os demais fenômenos manifestados, poderá ser boa ou má na conformidade do seu uso e aplicação.

Portanto, podemos entender que a negligência é o estado inercial do nosso corpo, ou seja, sua tendência de se manter estático até que um impulso externo altere seu estado anterior, impulso este determinado pela energia da vontade – que, muito embora canalizada pelo homem, não lhe pertence, pois é do universo, do divino.

A negligência manifesta-se de diversas formas, tem muitas caras e por vezes passa despercebida por nós que, por não raras vezes, julgamo-nos agir com prontidão, quando na verdade estamos sendo negligentes.

A negligência é um vício, e dos piores: ela nos domina, impede-nos de fazer as coisas que precisam ser feitas, torna nossas vidas confusas, inoperantes e sem sentido. É um obstáculo ao nosso crescimento espiritual, uma vez que não nos permite fazer o uso justo do nosso corpo. Em outras palavras, é como ter uma ferramenta e jamais usá-la para o fim a que se destina. Faz-nos dar um uso adverso ao nosso corpo e não deixa de ser uma forma de prostituição. Entendendo que o crescimento espiritual ocorre da matéria para o espírito, temos de compreender que, quando deixamos de fazer as coisas certas, deixamos também de aprender com elas – seja o trabalho, o estudo, as ritualísticas, etc.

Por isso a negligência é considerada o pior dos defeitos e faz-se necessário o seu domínio para um verdadeiro crescimento.

O mestre Confúcio, nascido em meados do séc. VI a.C., dedicou praticamente toda a vida a ensinar sua filosofia. Ele afirmava que ensinava a todos, exceto aos negligentes. Decerto Confúcio sabia que ensinar aos negligentes é desperdício de energia, energia esta que poderia ser melhor canalizada por se tratar de um bem esgotável. Já o mestre Jesus dizia: “Não atire pérolas aos porcos, pois eles não saberão como aproveitá-las.”

FORMAS DE MANIFESTAÇÃO DA NEGLIGÊNCIA

Como já dissemos, a negligência manifesta-se de diversas formas, possui muitas caras. Assim como os demais vícios, ela se camufla, o que dificulta identificá-la; no entanto, justamente essa identificação torna-se necessária para que possamos trabalhar o próximo ponto: como superá-la.

A forma mais comum e identificável é a indolência corporal, aquela que se manifesta principalmente pela manhã, nos finais de semana, ou após uma boa refeição.

Também aparece na ação de deixarmos as coisas para amanhã, ou para a semana que vem, ou quem sabe para o próximo ano. Quantos dos nossos sonhos morrem em seu berço, pois jamais os colocamos em prática? Por menos que queiramos, e na menor das desatenções, somos tomados por ela, deixando aquela xícara para ser lavada no dia seguinte, o regime a ser iniciado na segunda-feira, ou aqueles maravilhosos planos que juramos concretizar na passagem do ano. Essa, portanto, é mais uma das faces da negligência que, associada à nossa mente, nos faz pensar que verdadeiramente estamos agindo conforme nossos planos, simplesmente por estabelecermos datas futuras para iniciarmos uma determinada tarefa; ora, pura ilusão, pois, em raros casos, todos eles poderiam ser postos em prática de imediato.

Mais uma das suas facetas é a falta de compromisso com as coisas que julgamos importantes, tratando-as de qualquer forma, sempre adiando os trabalhos, abandonando cursos, acumulando trabalhos sem acabamento, presentes sem embrulho, deixando o lixo que foi produzido após qualquer atividade; enfim, trata-se de tudo que deixamos por fazer.

Cuidado com as pequenas coisas, pois é aí que a negligência se agarra. Nossa vaidade incumbe-se de esconder nosso lado negligente nas grandes coisas, portanto, a negligência tem de dar vazão nas pequenas coisas, naquelas que não estão aos olhos de ninguém. É você e sua consciência, com a certeza de que ninguém está observando, e é justamente neste momento que se descobre se um homem é ou não negligente, ou quanto nós de fato nos dominamos.

E cuidado, pois não é pelo fato de alguém trabalhar muito e fazer muitas coisas que se pode considerar não negligente, pois as duas coisas podem andar juntas. Esta talvez seja a forma mais sutil de disfarce deste vício, uma vez que, mesmo trabalhando muito, este trabalho pode estar sendo feito de uma forma negligente, sem compromisso, com negligência a um ideal, de qualquer forma, sem se preocupar com seus resultados, prazos de entrega, etc.

Mais uma das formas que adota a negligência é a da burocracia, que no fundo é um pretexto para deixar de fazer ou adiar coisas.

Vale a pena lembrarmos que fazem parte da camuflagem da negligência as desculpas que damos por não fazermos as coisas de imediato ou da forma adequada, ou por não as realizarmos no prazo justo, desculpas estas na grande maioria das vezes muito nobres, que chegam até a convencer o menos alerta.

VOCÊ É NEGLIGENTE?

De alguma forma todos nós somos em algum grau negligentes. O importante é que identifiquemos este vício e qual é a sua proporção, para que então possamos lutar contra este inimigo comum.

Observe em você alguma das características acima descritas, ou melhor, observe o seu dia a dia, principalmente nas pequenas coisas, e você terá sua resposta, pois cada ser é um universo individual.

FORMA DE SUPERAR A NEGLIGÊNCIA

Bem, uma vez identificada, a negligência deve ser tratada como qualquer outro vício: devemos matá-la de fome, ou seja, não dando mais energias para alimentá-la. Devemos seguir um plano inteligente, pois agora sabemos quem de fato é nosso inimigo. Seguem abaixo algumas dicas que servirão para a batalha que chamamos de “Os 10 Mandamentos Contra a Negligência”:

  1. Estar sempre atento às pequenas coisas, pois é aí que ela se mostrará;
  2. Trabalhar a virtude contrária à negligência, ou seja, a prontidão;
  3. Planejar seu dia e seguir o planejamento;
  4. Não comer muita comida sólida e não ingerir bebidas alcoólicas em excesso;
  5. Não entrar em outros ciclos de sono, mas sim dormir o justo;
  6. Não deixar as coisas que podem ser imediatamante feitas para o dia seguinte;
  7. Zelar pelo acabamento dos trabalhos;
  8. Cumprir os horários dos compromissos assumidos;
  9. Estar sempre pronto para fazer o que deve ser feito;
  10. Procurar ser prático, afastando a burocracia.

 

“Conquiste-se um pouco por dia, mas sempre.”

3 Comments

  1. Nunca observei meus atos por tal perspectiva e reparei através deste texto quão negligente tenho sido comigo mesmo, agradeço pelo conhecimento compartilhado.

  2. Gostaria de saber quem escreveu este texto, achei interessante e gostaria de citar no meu TCC.

  3. Olá, Priscila!
    Pode atribuir a autoria ao Walmir Cardarelli ou citar o site da Academia na bibliografia.
    Um abraço!

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