Libertando-se dos vícios

Libertando-se dos vícios

Os vícios vêm perseguindo o homem desde seu primeiro contato com a razão, ou seja, quando adquirimos o livre arbítrio, pois, até então, por estarmos numa condição inferior, agíamos por instintos, assim como agem os animais. Desde essa data o homem foi apresentado para o vício.

Os vícios podem ser definidos como hábitos perniciosos, ou seja, tudo aquilo que repetimos sem controle e sem consciência, que não segue uma linha de conduta ética/moral. Não se trata simplesmente de um hábito, pois o hábito é um costume não necessariamente prejudicial. Por exemplo, podemos ter o hábito de diariamente ouvir música clássica, ou organizar nosso quarto ao levantar, entre outras atividades que importam em condutas positivas e não negativas.

Quando falamos em vícios, de pronto vêm às nossas mentes atitudes perniciosas como o alcoolismo, a toxicomania, o jogo de azar, ou ainda outros voltados ao campo sexual. Entretanto, devemos ampliar nosso campo de entendimento com relação ao vício e entendermos que a questão é bem mais ampla do que pode parecer. Tendo como definição que vícios são hábitos em primeiro lugar nocivos a nós mesmos e àqueles que nos cercam, e entendendo por hábito uma ação que repetimos por automatismo e sobre a qual não temos controle de mando, conclui-se que o vício é uma ação patológica, sobre a qual já não temos mais domínio.

Para entendermos melhor o que é um vício, precisamos entender que uma ação patológica é aquela sobre a qual não temos mais controle e que ação não é somente aquela concreta realizada com as mãos, a ação física, executada pelo nosso corpo físico, mas que a ação se dá também nos níveis mais sutis, por intermédio de palavras, pensamentos ou emoções, que também estão no campo das ações.

Quando iniciamos qualquer projeto, a primeira coisa que fazemos é idealizá-lo e, com isto, já estamos agindo no campo mental. Depois colocamos emoção, palavras, e outras formas de manifestação de uma ação que já se iniciou no campo mental e, por fim, vamos à ação física, que é uma decorrência natural dos campos de ação anteriores.

Entendido isso, podemos compreender melhor que os vícios não se restringem a ações no campo físico, como beber, ingerir drogas, fumar ou jogar.  Podemos ter vícios que habitam apenas o campo mental, como a negligência, manter pensamentos impuros, blasfemar, reclamar, falar mal da vida alheia, não ter prontidão para as coisas que precisam ser feitas, não ser cortês, ser mentiroso, ou seja, tudo o que foge da verdadeira natureza divina do homem, hábitos que temos e que sequer os reconhecemos tamanha é a nossa identificação com eles.

Destarte, limitamo-nos a identificar como vícios somente aqueles que se mostram como os maiores problemas sociais, como as drogas, o álcool e o cigarro, simplesmente por aparecerem mais, serem de mais fácil identificação. Isto se deve ao fato de sofrermos seus efeitos diretamente, pois o alcoólatra, assim como o drogado, nos incomoda mais e logicamente nos faz identificá-lo como viciado. Contudo, não é pela razão de se destacarem mais que necessariamente são os mais nocivos. Na verdade, não temos como medir seus efeitos, uma vez que não temos instrumentos de conhecimento para isso.  Imagine, no entanto, que mal não causa alguém com o vício de gerar intrigas se comparado a um fumante?

Pois bem, a explanação foi apenas para entendermos melhor a abrangência dos vícios e nos tornarmos cautelosos quanto à identificação deles em nós mesmos, já que o simples fato de alguém não fumar, não beber e não ingerir drogas não faz dele um não viciado, pois certamente poderá ter outros vícios mais sutis e, quem sabe, mais perniciosos para si mesmo e para a sociedade. Antes ainda de falarmos como combater os vícios, devemos conhecer qual a origem dos vícios, pois, muito embora em cada pessoa eles se manifestem de uma forma diferente, seja pela negligência, pelas drogas, pelo álcool, entre outros, todos os vícios possuem uma origem comum. Ela está atrelada à própria evolução humana que vem de uma condição animal, condição esta em que prevalece o egoísmo, a ação pelos instintos de sobrevivência, sem utilização da razão. Partindo deste ponto, podemos dizer que o homem tem travado uma luta interna para ser o senhor dos seus instintos, das suas raízes animais que fazem parte da sua história, da sua evolução. Neste processo de evolução, como ainda não atingiu um patamar de abandono de toda a sua personalidade, traz intrínsecos todos estes elementos animais que não podem ser simplesmente abandonados, visto que fazem parte dele e, já que não podem ser descartados pura e simplesmente, têm que ser dominados, adestrados e educados. E esta é a luta interna do homem com seu eu animal.

Por estarmos numa fase evolutiva ainda não concluída, ou seja, por estarmos a caminho de nos tornarmos humanos, já que não dominamos por completo o nosso eu inferior, este eu animal egoísta e instintivo ainda está latente e apresenta sua cara todos os dias de muitas formas: pela perda do controle emocional, pela falta de ética, pela não ação pelo dever e sim pelo prazer, ou ainda na forma de vícios, que se adequam ao momento e à personalidade de cada um. Ou seja, onde há brechas de consciência, onde não há o discernimento, nestes espaços os vícios se alojam e se manifestam.

Como em cada personalidade este eu animal se apresenta de uma forma, nós, que não nos conhecemos, temos a tendência de nos identificarmos com nossos vícios que, por isso, acabam passando despercebidos, como se fossem atitudes comuns, como se fizessem parte do humano. Na verdade não são, pois não pertencem à natureza humana. Enquanto éramos animais, eles eram bons e necessários, mas agora na condição de humanos em evolução já não fazem mais parte de nós.  Podemos comparar essa nossa maneira de agir a um adulto que não se apercebeu do seu crescimento e mantém hábitos de criança.

Assim sendo, a primeira coisa que precisamos fazer antes de querer combatê-los é identificá-los, para sabermos quem é nosso inimigo e qual a sua força, pois, conforme o nível de consciência de cada um, os vícios alteram sua face e sua roupagem. Como fazer isso, então?

Antes de responder, deixemos claro que os vícios podem ser mais fortes do que imaginamos. Assim sendo, antes de irmos ao campo de batalha para eliminá-los temos que saber qual o seu tamanho e quão profunda estão suas raízes para, depois, escolhermos as armas adequadas a utilizar., Isto se faz necessário para não corrermos o grande risco de perder a batalha, como comumente acontece ao dizermos a nós mesmos que não faremos aquilo novamente, mas bem mais cedo do que pensamos acabamos sucumbindo ao vício; desse modo, ele se torna mais forte, mais poderoso perante nós e, a cada derrota,  enfraquecemo-nos psicologicamente, e nos tornamos escravos dele e, em casos mais graves,  levam-nos a vida.

Devemos ainda ter em mente que precisamos ser inteligentes no combate aos vícios, ou seja, jamais lutar com ele de frente, força a força, como um troglodita, pois este é o campo de batalha com que ele está acostumado, já que suas origens são animais. Devemos usar o que temos de diferente e superior, já que os vícios na verdade são oriundos da nossa fase animal. Como o que temos de superior é a razão e a inteligência, são estas armas que devemos usar, não a força, pois como já falado a força é inerente ao vício, ao eu animal. Devemos ainda entender que, como as raízes do vício são parte de nós, ele jamais, enquanto na saga humana, será eliminado da nossa personalidade, ou seja, seremos por muito tempo companheiros destas raízes. Isto explica porque um alcoólatra, mesmo tendo dominado seu vício há anos, não pode voltar a beber sob pena de ver seu vício desabrochar novamente com todas as forças.

Por tudo isso, devemos ser inteligentes nos passos que tomamos no combate aos nossos vícios. Primeiramente, temos que identificá-los, rotulá-los e marcá-los a fogo. Para isso, faz-se necessária uma limpeza na nossa personalidade, um mergulho dentro de nós mesmos, de forma a separarmos o que de fato é parte da personalidade humana e o que é parte da personalidade animal. Para isso, o instrumento que devemos usar é a peneira do egoísmo, ou seja, a cada dúvida nos perguntarmos se gostaríamos que fizessem isto conosco. Se a resposta for sim, você estará diante do seu eu humano; se a resposta for não, você estará diante do seu eu animal. Portanto, etiquete, rotule e não se deixe enganar, pois ele vai querer mudar de forma quando perceber que está perdendo a batalha.

Uma vez identificado, jamais lute no campo de batalha dele, ou seja, ao procurarmos eliminar um vício, nunca devemos jogar nossa energia para evitar o comportamento inadequado pura e simplesmente, pois, na verdade, estaremos dando mais energia para o vício, que consequentemente ficará mais forte e alimentado. Não adianta deixarmos de fumar e ficarmos pensando no cigarro, corroendo-nos de vontade de fumar. Só pelo fato de pensarmos já estamos alimentando o vício com a nossa energia.  Devemos ser mais inteligentes, sair da superficialidade e ir à raiz do problema, ou seja, ao nosso eu animal; caso contrário, correremos o risco de pensar que eliminamos um vício, porém, pelo fato de não termos trabalhado suas raízes, ele reaparecerá sob outra forma. E como fazer isso?

Através da introspecção e inteligência, identificamos os vícios. Uma vez identificados, devemos trabalhar não neles, já que a solução de qualquer problema nunca se encontra nele mesmo e sim fora, pois, como já dissemos, estaremos alimentando e dando mais energia a ele. Temos que identificar a qualidade a que corresponde cada vício, sua contrapartida, sua outra polaridade, e aí sim colocar nossa energia nela, no sentido de desenvolver esta virtude. Imagine que alguém queira se livrar do vício da negligência, para isso, deverá trabalhar a qualidade da prontidão. Contudo, mesmo que não consiga identificar a qualidade oposta, deverá identificar qualquer outra virtude e trabalhá-la com afinco. A virtude é como uma escada que serve para nos elevar do eu animal para o eu humano, é uma passagem para um nível superior de consciência, um estado de alerta da alma, de autoconhecimento, que em outras palavras é o autodomínio, o único caminho para a verdadeira libertação da escravidão em que os vícios nos mantêm.

Este é um trabalho contínuo, feito pouco a pouco. Matar nossos vícios é um trabalho de elevação espiritual. Cada um que dominamos é um lastro do balão que jogamos fora e que permite nos elevarmos no caminho à verdadeira espiritualidade. Enquanto não encararmos esta batalha de uma forma inteligente e eficaz, não poderemos acelerar nosso desenvolvimento. Entendamos os vícios como bolas de ferro que não nos deixam caminhar e que somente os dominaremos quando de fato entendermos nossa missão: identificar um ideal e segui-lo, aceitando-nos e reconhecendo-nos como somos e nosso verdadeiro estágio de evolução, pois pensarmos que não temos vícios é nos identificarmos com eles e, em outras palavras, jamais declararmos guerra a eles, dado que na nossa condição de identificação com nossos vícios, matá-los seria matar a nós mesmos.

O caminho do autoconhecimento é o caminho da elevação de consciência, e procurar o conhecimento é ser filósofo, amante da sabedoria.

1 Comment

  1. Muito lucido! E sabio o conselho de nao os enfrenta-los diretamente.

Submit a Comment

O seu endereço de e-mail não será publicado. Campos obrigatórios são marcados com *