O vício da recompensa

O vício da recompensa

O VÍCIO DA RECOMPENSA 

 

Os vícios sempre foram assunto amplamente discutido entre os filósofos e religiosos, ou todos aqueles ocupados com o entendimento e estudo do comportamento humano.

 

Classificações e definições dentro da Psicologia demonstram que são muitos os vícios que podemos adquirir ao longo da vida, desde pequenos vícios aparentemente inocentes até vícios considerados mais destrutivos.

 

Porém, de uma maneira geral, atemo-nos ao estudo e combate aos vícios mais agressivos e de conhecimento comum, como o cigarro, a bebida, drogas e jogos de azar. Não obstante, não deixa de ser importante que os combatamos, dominando-os e os expurgando das nossas vidas, ainda perdurará o mais sutil de todos os vícios, aquele que tem cumprido sua missão durante milênios, escravizando a humanidade e prejudicando a nossa marcha na busca de nos tornarmos verdadeiramente seres humanos e amorosos.

 

O que denominamos “vício da recompensa” trata-se, como todo vício, de um hábito que, na qualidade de hábito, repete-se inconscientemente nas nossas vidas sem sequer percebemos.

 

Para melhor compreensão, podemos dividir a nossa mente em duas partes. Uma delas chamaremos mente analítica e a outra de mente reativa. A primeira possui a função de analisar, quantificar, estabelecer a constatação e o entendimento de um fato, que num segundo momento é conduzido à segunda mente denominada reativa. Esta provocará uma reação condizente com o fato apresentado, sendo que esta reação é produzida inconscientemente e com base nos valores e crenças que formatam nossos parâmetros de vida que, como um gatilho, dispara determinada reação sempre que aquela situação provocativa ocorrer.

 

Um destes parâmetros a nós impostos pela sociedade já viciada é de agirmos somente sob a condição de obtermos um ganho ou recompensa, que pode ser de muitas ordens, seja material, psicológica, emocional, ou ainda espiritual.

 

Em verdade, ao homem completo e já conscientemente formado no plano maior da espiritualidade, desnecessário seria ter uma motivação para agir e viver. A necessidade de uma motivação surge no momento em que nossa consciência se encontra no Ego, ou seja, na nossa parte inferior, nosso “não ser”, pois, uma vez que nossa consciência estivesse no nosso “SER” verdadeiro, a vida seria um eterno fluir. Qual a motivação que o Sol tem para brilhar todos os dias? Qual a motivação de um abacateiro para crescer e dar abacates? Não há motivação, há somente missão e cumprimento da Lei do dever e da sua própria natureza amorosa.

 

Não precisamos de motivos para desenvolvermos o Deus em nós. Se estabelecermos um motivo, este já será a recompensa e consequentemente não se há de atingir o fim proposto. Somente é possível ser feliz quando não se busca a felicidade; somente será possível tornarmo-nos pessoas melhores a partir do momento em que não desejarmos ser melhores; somente é possível ver a verdade quando não se deseja vê-la, ou seja, o próprio desejo impossibilita o objetivo, vez que este é vicioso, permeado pelo vício da recompensa.

 

Somos incapazes de mover um copo de lugar sem vislumbrarmos uma recompensa, porém nem percebemos que quando agimos neste patamar, estamos agindo no desamor, pois o verdadeiro amor que confundimos com casamento, com paixão, com emoção ou ainda com sentimentalismo, não é nada mais do que a ação sem busca do resultado, a reta ação ensinada no Hinduísmo ou, como é conhecida no Taoísmo, a ação pela inação, ou seja, fazer aquilo que deve ser feito segundo as nossas competências e responsabilidades, sem buscar qualquer retorno e resultado; ação pela missão de vida; ação pelo pertencer; ação pelo todo e nunca para si mesmo. A isto chamamos de amor ativo ou compaixão.

 

Entretanto estamos no caminho contrário, praticamente todas as nossas ações diárias têm como objetivo nós mesmos e sempre esperamos algum resultado, sem perceber que fomos treinados desde criança para isso. Perdemos nossos parâmetros de comparação, já que praticamente toda a sociedade age neste diapasão.

 

Trabalhamos por dinheiro. Ajudamos, porém, logo pensamos nos créditos que acumulamos junto aos outros, exigimos nem que seja um agradecimento, caso contrário, nos frustramos, julgamos e criticamos o mal-agradecido. Até as ações aparentemente mais nobres trazem consigo o motor da recompensa, que pode estar simplesmente no prazer proporcionado pela ação ou ainda na recompensa de um benefício após a morte, quem sabe o reino dos Céus. Nesta condição, toda ação é viciada e por este motivo presenciamos pessoas que durante a vida toda prestaram-se a levar uma conduta aparentemente religiosa, porém que não melhoraram como seres humanos. Isso se explica pelo fato de todas as suas aparentemente nobres ações estarem contaminadas pelo vício da recompensa.

 

Quando de tempos em tempos aparecem homens capazes de quebrar esta regra e agir pelo conjunto sem apego ao resultado, estes se tornam nossos referenciais de sabedoria e equilíbrio, qualidades estas que se originam no amor que permeia suas ações. Assim temos Gandhi, Madre Teresa de Calcutá, etc.

 

Este vício está tão enraizado em nós, que sequer o percebemos. Achamos que se trata de um comportamento normal agir por recompensa, porém não o é. Criamos até cursos sobre motivação e utilizamos estes recursos motivacionais para impulsionar as pessoas a fazerem aquilo que nos é conveniente e interessante. Podemos, através da recompensa, adestrar homens ou animais, porém, estaremos sempre nos aproveitando dos nossos semelhantes que ainda padecem de consciências medíocres.

 

Como já foi dito, nossa capacidade de amar começa a se desenvolver quando nos ativamos a agir sem qualquer motivação, porém com direção e consciência.

 

Sem medo de errar, podemos afirmar que os demais vícios, como o fumo, alcoolismo, jogos de azar, etc. estão, num segundo momento, com suas raízes firmadas na busca da recompensa, pois todos trazem algum prazer imediato. Estão vinculados a algum benefício, seja ele concreto ou sutil e esta é a nossa recompensa, ou seja, a busca pela recompensa  escraviza-nos e não nos permite evoluir em consciência, mantendo-nos num círculo vicioso, que para se tornar um círculo virtuoso haverá de ter um ponto de inflexão, e este ocorrerá no dia em que você puder agir na pureza de sentimento, ou seja, agir pelo verdadeiro amor, agir sem buscar recompensa da sua ação. Aí, então, terá aprendido o verdadeiro amor.

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