O desapego

O desapego

O DESAPEGO 

Quando estudamos a filosofia budista, verificamos que ela resume toda a problemática humana no apego, afirmando que a causa remota de todo o sofrimento, bem como dos necessários retornos encarnacionais, ocorrem pela necessidade que apresentamos de por uma vez mais trabalhar o desapego.

 

Nas atividades eclesiásticas dos monges budistas há uma prática específica onde, sob a entonação de mantras, estes dedicam dias na montagem de lindas mandalas de areia colorida – uma mais bela que a outra. Porém, assim que concluídas, imediatamente são desfeitas pelo próprio monge que as construiu. Este exercício objetiva trabalhar o desapego à obra. 

 

Confunde-se aquele que acredita que a raiz do apego esteja relacionada a posses ou acúmulo de bens materiais. Fosse assim, o mal do apego estaria restrito somente às pessoas abastadas materialmente, o que não é verdade. O apego não advém especificamente da posse de coisas, bem como o contrário também não é verdadeiro. A capacidade de gerar riqueza econômica não se explica pelo volume de apego do seu detentor, mas por outros motivos,  por  exemplo, o trabalho qualificado, a capacidade de controlar e administrar o dinheiro com sapiência e equilíbrio e, sobretudo, pela manutenção de uma postura mental de riqueza . 

 

Por outro lado, não obstante o homem ser pobre no sentido material da palavra – sem teto, sem emprego, sem dinheiro e sem bens materiais que possam ser considerados relevantes – este acaba demonstrando seu apego pelo pouco que tem ou que lhe restou, seja uma caneca ou um chinelo já sem condições de uso. 

 

O apego, na verdade, tem sua raiz na capacidade de identificação da nossa alma com tudo que nos cerca, entendendo que utilizo aqui o substantivo abstrato alma como sendo sinônimo do nosso ego, da nossa mente desejosa e não do espírito que somos em essência. Contrário senso, o apego surge na medida da nossa desidentificação com nosso verdadeiro “EU”. 

 

Engana-se no mesmo diapasão aquele que acredita que o apego se relacione à quantidade e/ou qualidade de bens e/ou pessoas, pois o apego não se alinha linearmente aos valores intrínsecos ou extrínsecos do bem ou da pessoa objeto do apego, mas, sim, com o quanto nos identificamos com os objetos, pessoas ou ideias, o quanto nos identificamos com o externo e nos desidentificamos com nossa verdadeira essência e natureza (nosso eu superior). 

 

Tampouco existe relação de apego com o amor, muito pelo contrário, quanto mais presente o apego, menos desenvolvida é a nossa capacidade de amar verdadeiramente. Prova disto encontramos no comportamento dos pais em relação a seus filhos, ou mesmo nas amizades mais íntimas, onde ilusoriamente nos convencemos de que amamos, porém não damos o melhor ao ser supostamente amado. Dizemos amar nossos filhos, porém não impomos a eles os limites tão necessários a um bom desenvolvimento psíquico, não cuidamos da sua alimentação física e muito menos do alimento espiritual. Sob o pretexto de protegê-los, tiramos deles a oportunidade de crescer quando os isolamos do mundo e/ou não lhes permitimos que tenham as experiências necessárias ao bom e natural desenvolvimento de seus talentos naturais. 

 

Pelo motor do apego adotamos animais de estimação, isolamo-los do seu meio natural, tratamo-los como gente, restringimos sua alimentação a uma porção de ração, limitamos seu espaço a poucos metros quadrados e, por fim, dizemos que os amamos, sem perceber que o verdadeiro motor não é o amor e sim o apego que temos ao nosso próprio ego que necessita da ilusão de uma companhia passiva, de algo ou alguém que possa ser o alvo de nossas loucuras, de preferência que não possa  se autoproteger ou  opor-se às nossas atitudes e vontades. 

 

Ainda como reflexo da nossa cegueira espiritual que acompanha nossa loucura, praticamente todos os atos de nossa vida são calcados pelo apego que desenvolvemos pelas nossas ideias, objetos, animais e pessoas, pois, sob o pretexto de que amamos tudo e todos esconde-se nosso apego, nossa identificação personalística. Tanto é verdade que trocamos o amor pelo apego, que esta mentira é revelada e exposta pela dor e sofrimento que surgem em decorrência da perda de um objeto, de dinheiro, de poder, de dominação ou de um ente querido, pois o que nos fará falta não é a pessoa e sim o que ela representa para nós. Nosso apego não é pelo objeto e sim pelo que este representa para nós. 

 

Isso mesmo, caro leitor, o verdadeiro amor não convive com a dor. Pelo contrário, o verdadeiro amor é sinônimo de harmonia, felicidade, liberdade do espírito e estado de glória, exatamente o contrário das consequências do apego, que, inexoravelmente, geram sofrimento, tristeza, ausência de paz de espírito e infelicidade, haja vista que o simples fato de acreditarmos “ter” algo, pessoas, animais ou ideias, automaticamente nos coloca em uma condição de debilidade, pois se criamos a condição do “ter”, implícita está a condição do “não ter”, ou seja, ao acreditarmos que temos, também acreditamos que podemos perder, surgindo daí a condição de instabilidade da nossa psique gerada pela mera possibilidade de ter seu bem subtraído. 

 

Conclui-se, então, que o apego é o antônimo do amor, pois quem verdadeiramente ama não incorre na ilusão da posse, seja ela de pessoas, bens, dinheiro, poder, animais, cargos ou ideias. 

 

Desapegar-se exige um trabalho vertical e não horizontal. A saída para o apego não é e nunca foi despojar-se de bens ou muito menos isolar-se nas montanhas, pelo contrário, a única saída do labirinto do ego humano é o sótão, é passar a regrar a vida pelos valores e leis espirituais e não pelas leis da matéria. Necessário se faz esquecer-se de si mesmo em detrimento do todo, desenvolver a empatia e a sensibilidade a ponto de se perceberem as necessidades do mundo e agir sobre elas com inteligência e pureza, doando o nosso melhor em tudo o que fazermos e participamos. 

 

Para melhor ilustrar a identificação do ego, citamos o exemplo simples de que a maioria das pessoas acredita ter um espírito, esquecendo-se, pela força da identificação com o próprio ego, de que, em verdade, é o espírito e que possui um corpo e não o contrário. 

 

– Enquanto estivermos apegados à vitória, viveremos como derrotados;  

 

– Enquanto estivermos apegados à justiça, promoveremos a injustiça; 

 

-Enquanto estivermos apegados ao prazer, não provaremos da felicidade; 

 

– Enquanto estivermos apegados ao poder, experimentaremos uma vida de fracassos; 

 

– Enquanto estivermos apegados à vida, prorrogaremos a nossa morte consciencial; 

 

– Enquanto estivermos apegados à sabedoria, nos condenaremos à ignorância; 

 

– Enquanto estivermos apegados aos bens materiais, estaremos na condição de escravos dele, consequentemente na pobreza; 

 

– Enquanto estivermos apegados em fazer o bem, viveremos o mal inconsciente; 

 

“ O valor de um artista não está na beleza e no acabamento da sua obra, mas na sua capacidade de se desapegar dela.” 

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