Consolar – Significado perdido

Consolar – Significado perdido

CONSOLAR – SIGNIFICADO PERDIDO

 

Senhor fazei com que eu procure mais, consolar que ser consolado …”

 

A frase acima, extraída da oração de São Francisco, é uma das mais profundas e significativas orações de cunho cristão que resume em poucas palavras toda a essência do ensinamento Franciscano. Francisco de Assis procurou resgatar a filosofia de uma vida simples e objetiva numa época em que a Igreja notoriamente se afastou de sua verdadeira missão de religar o homem a Deus, pois se perdeu em meio às suas crenças limitantes, dogmas e o peso do ego dos seus dirigentes.

Até os dias de hoje esta oração é um referencial de conduta espiritualista, independentemente da religião de cada um daqueles que venham a ter contato com estas sábias combinações de palavras.

No entanto, percebem-se duas grandes questões que merecem atenção. A primeira delas é a resistência que demonstramos em viver estes ensinamentos, pois certamente exigiriam uma mudança profunda na nossa forma de pensar e agir. Isto porque, resumidamente, viver tão sábias palavras significa uma alquimia profunda na alma, tendo em consideração a mediana forma de conduta da humanidade, que em sua maioria utiliza praticamente a plenitude do seu tempo dedicando-o a ações egoístas e na busca do prazer pessoal.

Uma segunda questão encontra-se no entendimento do verdadeiro sentido oculto em cada frase da oração, em especial em algumas palavras, por exemplo o verbo “consolar”.

No conceito comum, entende-se como significado de consolar o ato de aliviar ou amenizar a aflição de alguém ou de si mesmo, porém há de se estabelecer um raciocínio de como isso ocorre, pois há duas maneiras de se consolar ou receber consolo, como segue:

 

  • O falso sentido de consolar – entende-se por falso consolo aquele que não leva luz ao consolado, mas mero apoio às suas debilidades e reforço às suas fraquezas, por se tratar de um mecanismo conveniente aos egos, tanto daquele que consola quanto daquele que é consolado. É bastante usual nas relações interpessoais. Para o consolador, o falso consolo atua como uma ferramenta de dominação e manipulação sobre o consolado, pois o mantém na ignorância e debilidade, já que não atua na causa e simplesmente diz o que o outro gostaria de ouvir no nível do ego. Por outro lado, ao consolado também é conveniente, pois como não tem a sua posição de vítima confrontada, pelo contrário, sua débil posição psicológica é em verdade apoiada e fomentada pelo consolador, este nada precisa fazer, a não ser se sentir confortável e consolado pela falsa ideia de vitimismo em que se colocou.

Esta forma de consolo, apesar de ser a mais comum, não representa o verdadeiro sentido da palavra “consolar”, pois não aponta para o caminho da solução consciente da problemática da psique, ou seja, não conduz a luz necessária que libertaria a vítima de seu maior e único mal, a ignorância. Dessa maneira, quando auxiliamos o outro a se manter na ilusão, não estamos consolando, estamos tentando agradá-lo, ao mesmo tempo que alimentamos a nossa vaidade através do reforço de uma autoimagem ilusória. Assim, sentimo-nos “boas pessoas” enquanto o outro mergulha mais ainda nas suas problemáticas psicológicas.

Este é o tipo de ajuda onde os dois perdem, ambos sucumbem, um pelo vitimismo e indolência espiritual e o outro pelo reforço do falso EU.

 

  • O verdadeiro sentido – o verdadeiro sentido da palavra consolar é conduzir à luz. “ Onde houver trevas que eu leve a luz…” . Consolar, segundo a sua essência filosófica e etimologia, significa “conduzir ao Sol”, colocar luz onde há trevas. Isso se realiza na prática quando orientamos o outro no sentido deste dissipar a ignorância pela visão da realidade e não da manutenção da ilusão criada pelo seu próprio ego.

Esta é a verdadeira função dos pais, de um amigo ou de um mestre segundo a cultura da técnica milenar de mestres e discípulos. Um mestre ou amigo jamais apoia a debilidade do outro, pelo contrário, procura orientá-lo e conduzi-lo ao seu melhor, para que este enxergue a verdade, pois sabe que a verdadeira libertação somente pode vir a partir do conhecimento da verdade. Quem desconhece a verdade está ainda distante de iniciar a cura dos seus próprios males, já que a ilusão tem por condão evitar que o homem seja seu próprio remédio.

Resgatar o verdadeiro sentido do verbo “consolar” é, ao mesmo tempo, também resgatar o verdadeiro e esquecido sentido do que seja ser um mestre, um amigo, ou pai e mãe, pois sempre que procuramos o caminho aparentemente mais fácil que é atuar no falso consolo, estamos agindo equivocadamente nas funções de amigo, mestre, pai ou mãe, já que não estamos contribuindo com o melhor do outro e sim com o pior. Desta forma, vamos todos nos tornando piores, tanto quando procuramos o falso consolo como quando consolamos falsamente.

A busca pelo verdadeiro consolo, seja com alguém ou com uma entidade espiritual, não significa fraqueza, muito pelo contrário, significa coragem e não arrogância. Tal virtude conduz ao caminho de outra maior, a humildade, que converge para que o homem possa reconhecer a sua própria ignorância. É neste exato momento que ocorre um ponto de inflexão que marca o caminhar evolutivo de todas as consciências humanas, pois quando nos conscientizamos da nossa loucura é porque estamo-nos curando dela. Sócrates enfim entendeu a afirmação do Oráculo de Delfos quando afirmou que ele era o mais sábio de toda a Grécia, por entender que somente ele tinha consciência da sua própria ignorância.

 

“Eu sei que nada sei.”       Sócrates

 

Jamais apoie a debilidade do outro, assim não estará apoiando a sua própria debilidade!

Academia

 

1 Comment

  1. Mais uma vez o ego envolvido, e sempre estará…
    Em relação aos sentimentos.
    Atrás do falso conceito de consolar, há uma insegurança em relação ao outro, um sentimento desesperador de não ser o primeiro, ou o protagonista.

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