A caridade

A caridade

A CARIDADE

 

A palavra caridade tem sua etimologia no latim “carita” que significa amor, “carus” de alto valor, digno de apreço. No senso comum alguém caridoso é sinônimo de uma pessoa despojada, que não mede esforços para se doar ou doar seus bens a favor do próximo.

Não contrariando o senso comum, mas pode-se ampliar o significado do que seja caridade, e principalmente fazê-lo sob os olhos vigilantes das inúmeros distorções que o sentido da palavra tomou ao longo do tempo, ou seja, vamos procurar restabelecer o verdadeiro e amplo sentido da palavra “caridade”.

Observa-se que, muitas vezes tanto a utilização quanto a leitura que se faz sobre o que seja caridade, carrega um desvio em função do estreitamento da visão espiritual sobre o comportamento humano. Com a decadência de uma  educação cada dia menos espiritualizada, independentemente da religião, não aprendemos e não ensinamos mais valores superiores da alma, em decorrência disto, perdemos também a sensibilidade sobre os sentimentos mais puros, nos tornando brutos no espírito.

Passamos então a achar que alguém caridoso é aquele que doa seus bens aos demais, e muitas vezes procuramos tecer imitações deste comportamento sem qualquer consciência do que esteja de fato fazendo. Neste diapasão, passamos a dar esmolas e doações sem qualquer critério de inteligência, onde acabamos apoiando a debilidade dos mais fracos, em detrimento de uma falsa ideia de superioridade e de ajuda humanitária.

Sob a ação da falsa caridade jaz um ego egoísta e manipulador, onde a doação tem por última finalidade beneficiar o próprio doador, mesmo que num primeiro momento não possa parecer, porém a maioria dos atos de doação estão sim contaminados com nosso ego, com nossos interesses pessoais, nem que seja o interesse mais oculto e sutil de pleitearmos o reino dos céus, ou mesmo a intenção de querer e parecer ser bom aos olhos alheios.

A verdadeira caridade é pura e calcada na vontade, no amor e na inteligência, ou seja, ela carrega a trindade pois é uma manifestação trina daquele que age através da Divindade.

A caridade exige amor verdadeiro e não emoção, toda caridade consiste em sentimento de compaixão e não de piedade ou dó, a ação advém do motor do dever humano, da missão e não de uma ação astralizada. Vejamos articuladamente cada uma das três forças que devem permear a verdadeira caridade:

 

  • Vontade – Não existe caridade pela via da expectativa e da contemplação, a caridade exige movimento e ação. Não é caridoso aquele que alimenta piedade e dó, porém nada faz a favor do semelhante. Crítica e falas sem ação nada mudam.

 

  • Amor – O amor é o sentimento que deve sustentar todas as ações de caridade, não podemos deixa-lo substituir pela emoção, a consciência de que tudo é justo, porém tudo também é mutável, faz da caridade um movimento com poder de alquimizar todos àqueles envolvidos na ação.

 

  • Inteligência – Sem inteligência normalmente a ação não atinge sua eficácia e eficiência, a inteligência nos permite canalizar nossa energia para se produzir o melhor resultado, neste sentido, o leitor vai perceber com o tempo que normalmente o que devemos doar não coincide com o que é pedido, pois quem pede, por ignorância não sabe de fato do que efetivamente precisa, e se restringe a pedir o que lhe é mais imediato e normalmente restritivo a bens materiais, quando na verdade o que precisa é de educação que afaste-o do seu atual estado de ignorância e fragilidade.

 

Podemos concluir que vontade sem inteligência, mesmo que bem intencionado não resulta em sucesso, bem como vontade sem amor, certamente vai se restringir a apoiar as debilidades já existentes, senão ampliá-las e perpetuá-las. Isto posto, necessariamente devemos ter os três princípios da caridade agindo em conjunto, para somente neste caso podermos afirmar que estamos doando o que temos de maior valor e apreço, ou seja, a verdadeira caridade não mede esforços, e por conta disso doamos o nosso melhor, caso contrário, trata-se de somente de mais uma das nossas fantasias egocêntricas as quais chamamos de caridade.

 

Sem caridade não há espiritualidade.

 

 

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