Competição

Competição

O discípulo perguntou ao mestre:

– Mestre, a competição traz o progresso?

O mestre respondeu:

– Depende. Depende do que você entende por progresso. O progresso pode ser entendido como sendo o desenvolvimento de novas tecnologias,  maior produção e acúmulo de riquezas. Se assim for, então pode-se concluir que a competição leva ao progresso, pois ela faz despertar no homem seus talentos latentes, adormecidos pela inércia e o comodismo. Assim, diante da necessidade de superar seu igual, o homem lança mão do que encontra de melhor em si, de suas melhores ferramentas para vencer a batalha que trava com seus colegas no trabalho, na escola e em qualquer outro lugar que levante bandeira de guerra, pois a competição é uma guerra.

Lembre-se, filho, da guerra fria entre os Estados Unidos e a União Soviética, como a competição trouxe muito progresso, no sentido material: armas foram desenvolvidas, bem como técnicas de inteligência militar e inventos tecnológicos, os quais foram inseridos na medicina, na aeronáutica e em outros tantos ramos da ciência.

Porém, pergunto-lhe, o mundo melhorou com tudo isto? Qual aporte espiritual esta competição trouxe à humanidade?  Quanta energia foi desviada, que poderia ter sido utilizada para ajudar a humanidade a buscar seu verdadeiro caminho?

Filho, o progresso humano não se mede pela tecnologia, mas sim pela elevação da condição ético-moral, do respeito à natureza, independentemente do que ela nos dê, do respeito ao próximo, independentemente de quem seja, e pela aproximação do homem da conquista do amor incondicional. É o que mede o verdadeiro progresso. A tecnologia é apenas um componente que deve também fazer parte deste progresso, na medida que permite ao homem novas descobertas, que lhe possibilitem o despertar da consciência, o atendimento das necessidades básicas para ter uma vida digna e poder focar sua atenção no  plano espiritual, que possibilite ao homem realizar-se pelo trabalho e não simplesmente realizar um trabalho.

Ai, então, o homem assim direcionado será um filósofo, caminhando na busca da sabedoria, para poder a cada dia que passa, aportar ao mundo com maior qualidade e quantidade e, como este aporte está revestido de amor incondicional, esta produção não é para ele, mas para a sociedade como um todo. Por isso haverá melhor distribuição de renda e, por conseguinte,  justiça social.

Este filósofo jamais vai competir com seu irmão, pois quem ama não compete, quem ama dá o melhor de si sem esperar resultados.  Este é o motor que substituirá a competição, o amor à humanidade e a todas as coisas e, se tiver de haver competição, que seja consigo mesmo para, a cada dia, procurar ser melhor. Esta é a verdadeira competição que leva ao progresso, a competição imbuída de amor ao próximo e a si mesmo pois, quem não é capaz de se amar, jamais amará alguém verdadeiramente.

Portanto, filho, cuidado com seus referenciais, nem tudo o que se apresenta bom é de fato bom.

 

Insiste o discípulo:

– Mestre, então porque dizem que os gregos e os romanos eram sábios? Seria pelo fato de terem montado grandes civilizações e  competido entre si nos esportes?

– Ora filho, como disse, cuidado com as aparências. O verdadeiro atleta nunca compete com o seu adversário, o adversário representa o eu inferior de cada um de nós. Os jogos gregos e romanos eram, a princípio, rituais aos Deuses, onde cada um aportava o melhor de si no esporte escolhido. A competição era interna e não externa. Era uma oferenda, um ritual para nos lembrarmos de que devemos estar prontos para a guerra e declará-la tão logo quanto possível. Refiro-me à guerra interna de cada um. Esta sim é a verdadeira competição que leva ao progresso. Vencer no esporte é vencer  si mesmo e não o adversário e, por isto, eles se cumprimentam antes e depois da disputa. É somente um símbolo do nosso ego inferior, um espelho da alma.

Pobre do homem que busca a competição externa, a guerra fora de si mesmo, ou pratica o esporte para sobrepor seu adversário, está tão longe de atingir o alvo quanto uma flecha cega penetrar a madeira.

 

Clique aqui para ouvir a versão em áudio

Submit a Comment

O seu endereço de e-mail não será publicado. Campos obrigatórios são marcados com *