A vaidade

A vaidade
A vaidade

A vaidade

Talvez seja a vaidade um dos mais perniciosos e silenciosos vícios que assolam a humanidade; não é por nada que se encontra arrolado como um dos sete pecados capitais que, segundo o catolicismo cristão, é um vício mortal à alma.

A vaidade ocupa um lugar em nós, por pequeno que seja; ela estará escondida em alguns e mais exposta em outros, da mesma forma que sua intensidade se altera de pessoa para pessoa, conforme o nível de domínio da personalidade de cada um e ela pode se disfarçar em muitas caras, porém a raiz será sempre a mesma.

O grande segredo do filósofo, o homem que busca tornar-se melhor, é encarar esta realidade e trabalhá-la de uma forma inteligente e eficaz. Para tanto, necessário se faz conhecer sua origem, sua raiz, pois simplesmente abafar seus efeitos, suas manifestações, não é suficiente para definhar sua raiz.

Um grande passo em direção à morte da vaidade é a própria postura de, sem medo, encarar a nossa realidade, pois quando fazemos isso, reconhecendo o quão imperfeito somos, e o quão culpados somos dos nossos próprios males, estamos exatamente trabalhando a virtude que se opõe à vaidade, e a esta virtude chamamos humildade.

A vaidade é prima irmã do orgulho. Enquanto o orgulho nos compele a exercer nossa vontade sublimando a vontade do outro, colocando a nossa personalidade sempre em destaque, a vaidade se incumbe de vestir esta auto-imagem, ou seja, enquanto o orgulho é o estado de espírito pleno de quem é na realidade vazio, a vaidade incumbe-se de maquiar o orgulho para o mundo externo.

Por este motivo, o vaidoso comumente exagera nos cuidados da sua apresentação pessoal aparentemente impecável, expressa-se por palavras pouco comuns aos ouvidos do ouvinte, não raramente se coloca em um pedestal sem ser questionado, faz questão de declinar seu curriculum e sempre com doses de exageros, procura evidenciar suas qualidade intelectuais sem poupar referências à sua própria pessoa, sempre demonstra um dote a mais que jamais se oferece a ensinar, demonstra intolerância para com os mais simples, sempre valoriza mais o título do que a condição de merecê-lo, jamais reconhece seus erros, mantém-se obtuso quanto à sua auto imagem e imagina ser algo que não é, por isso necessita convencer os demais e sobretudo a si mesmo.

Lembremos o mito dos metais contado por Platão, que afirmava que o homem que tinha o ouro interno era o sábio, pois exatamente por possuir este ouro interno, não precisava buscar o ouro externo. Com o vaidoso ocorre exatamente o oposto.

Vale a pena ressaltar que a vaidade se disfarça camuflando-se de virtudes, que a uma pessoa pouco observadora por algum tempo pode enganar, mas infelizmente na maioria das vezes este subterfúgio do vício engana por muito tempo o seu próprio senhor que agora está na condição de escravo.

Quando questionado sobre seu exagero nas aparências, o vaidoso certamente se valerá de subterfúgios, afirmando estar sendo zeloso consigo mesmo pelo grande amor próprio que desenvolveu e, quando questionado sobre sua pedância intelectual, certamente a chamará de erudição.

Há também um outro tipo de camuflagem, onde nem sempre o orgulhoso demonstra a vaidade, pelo contrário, ele procura demonstrar um desprendimento quanto à sua aparência, como se quisera demonstrar uma humildade que não existe.

A vaidade pode ocultar-se ainda, no medo de errar, mas o que de fato importa é compreendermos que tudo isso não passa de falsos caminhos, que nos iludem e nos tomam a vida. Aristóteles nos ensina que a melhor forma de combatermos um vício é trabalharmos a virtude contrária, como um ferreiro que ao desentortar uma barra de ferro bate fora e não dentro.

2 Comments

  1. matias aires

  2. Ótimo texto.

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