A Solidão

A Solidão

Normalmente vista como algo ruim, a solidão, aos olhos do filósofo, não desperta tanto medo, aliás há de se perceber que estar só é uma necessidade do ser humano mas, mesmo assim, a solidão tem sido uma sombra a assustar milhões de pessoas.

Nossa vida está cada dia mais particularizada, já não se visitam mais os parentes como   há alguns anos atrás, vizinhos de porta sequer sabem seus nomes, quando muito há um cumprimento frio no elevador. Não conhecemos os amigos do trabalho com quem convivemos a maior parte de nossas vidas, passamos a ser mais um número que se perde entre um aglomerado de pessoas.

O sectarismo é a autoproteção do egoísta, uma sociedade sem um verdadeiro líder político, isto é, aquele que não se ocupa restritamente em viabilizar o aspecto econômico e financeiro de um povo, mas sim de viabilizar a realização deste povo como  civilização, onde os indivíduos assumam sua cidadania e participem de um ideal comum, transcendente ao tempo e ao espaço. Na ausência desta verdadeira liderança, o homem despreparado e desnorteado assume o seu eu animal, onde os hábitos e os instintos de sobrevivência  sobrepõem-se ao discernimento e à moral.

O que faz uma verdadeira civilização é seu poder agregador em função de um grande ideal comum. Porém, quando este falta, inicia-se a desagregação, todo o sistema rui, a energia deste poder agregador não corre mais pelos seus canais que são seus indivíduos, seus cidadãos. Assim como um rio que não recebe mais água no seu leito, seca e deixa de ser rio, assim é com uma civilização, quando seca a fonte todo o resto  atrofia-se.

Os sintomas desta sociedade são o sectarismo, a separatividade da natureza e de si mesmos, a perda do referencial de vida, esquece-se de quem é e para que vive. Vemos, então,  o homem  organizar-se em classes que lutam entre si, organizar-se em partidos políticos, associações, ordens, sindicatos, conselhos e tantas outras facções, que ostentam a bandeira de defensores dos direitos de categorias isoladas.

Por isto vemos aumentar, a cada dia, as separações conjugais, o isolamento do homem, pessoas cada vez mais morando  sós e separadas. Esta é a solidão que criamos para nós, Ao mesmo tempo que ultrapassamos todos os índices demográficos, estamos cada vez mais sós, cada vez mais individualistas.

Como a filosofia nos ensina:  “o amor une e o egoísmo separa”.  Somos como células cancerígenas que querem viver por si mesmas, independentemente do sistema e, agindo assim, estamos violando a própria natureza humana, que sempre foi social, pois a alma humana individualizada faz parte da alma da humanidade, e isto nos fará sermos sempre irmãos, não obstante termo-nos esquecido disto.

Entretanto, não há somente a solidão egoísta, existe também a solidão iluminada pela consciência, e esta não imputa medo. Enquanto a solidão egoísta separa as pessoas e assusta suas vítimas, a solidão consciencial ajuda na evolução. Aquela assusta porque torna sua vítima frágil, desiludida, depressiva. O solitário egoísta vê na solidão não somente o abandono e o desterro, mas vê também o assustador momento em que perde o controle sobre sua mente e seu corpo emocional, que muitas vezes o faz olhar em direção ao seu eu interno. Esta visão, não raras vezes, o assusta pois vê em si mesmo alguém infeliz, desagregado, sem ideal, vazio e que, por mais patrimônio que possa ter, não se torna feliz e seguro, não se reconhece como um ser humano completo, percebe a falta de algo que ainda não conquistou, percebe no fundo que não está na trilha correta e que, a cada curva, poderá acarear-se com o desconhecido.  Este é o maior problema da solidão do egoísta e sua maior tristeza, pois se vê só, mesmo estando entre milhares de amigos e parentes e, pior, não sabe o que fazer diante disto.

Já a solidão do filósofo não o assusta, pois sabe que estar só não o desvinculará jamais de suas almas irmãs e da grande natureza e vê na solidão a grande oportunidade de  refletir, de meditar, avaliar sua conduta e seu caminho, fazer boas coisas pela humanidade, orar, consagrar sua vida e todas as suas obras. Por isto a solidão não o assusta, sua força interna traz a convicção de sua parte divina, a solidão  permite-lhe conhecer-se melhor e ser, a cada dia mais, senhor de si mesmo, dono de um poder interno até então desconhecido.

Parafraseando o filósofo estóico Sêneca, o qual disse que “o filósofo se basta a si mesmo”, mas não por querer ser só e sim por valorizar a amizade. O que faz um homem mais ou menos sociável não é a quantidade de pessoas que o cercam, mas sim o quanto ele cerca cada pessoa com seu amor.

Um filósofo jamais estará sozinho, pois sabe que tudo  que o cerca tem vida, e esta vida deve ser respeitada. Cada coisa tem sua função no cosmo e, queiramos ou não, tudo está interligado como numa grande teia onde um leve vibrar num canto ressoa na outra extremidade. Portanto, jamais o homem esteve só ou ficará só, o que o faz solitário é sua postura separatista, egocêntrica que não lhe permite ver nada mais além dele mesmo. Porém, isto não o faz ser só,  faz sentir-se só. Não há excluídos e sim aqueles que se excluem.

Portanto, faça da sua solidão a grande arma de sua evolução.

 

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8 Comments

  1. Muito bom!

    Muito pouca gente percebe que o grande problema da sociedade atual é a perda dos valores espirituais ou mesmo a consciência do que sejam tais valores.

  2. Acredito que a solidão é necessária para todos nós, afinal, se não suportarmos ficarmos a sós em nossa própria companhia como podemos usufruir da companhia alheia sem fazer dela um sustentáculo do qual precisamos para acomodar nossos medos e frustrações?

  3. Reflexões com estas, fazem nos lembrar o quanto estamos buscando um mundo cada vez mais “la fora”, que é necessário, claro, afinal somos feitos pra viver em sociedade, mas o quanto nos esquecemos de buscar em nós mesmos o necessário para estarmos bem, e assim poder compartilhar um pouco disso para aqueles que ainda não sabem…

  4. Nos somos igual a duas estações do ano inverno e verão
    Inverno é quando nos recolhemos e nos agasalhamos para nos proteger do frio, assim é a solidão: nos insolamos para refletir e colocarmos em ordem nosso subconciente e nossos sentimentos.
    Verão queremos passear , sair, bom ai estamos prontos para receber novas amizade, ouvir mas as pessoas compreender seus problemas em fim
    aprender e aceitar que a vida nos oferece.Assim somos nos com os nossos sentimentos solidão e felicidade…

  5. FAZ PARTE DA VIDA CONVIVER COM O DIFERENTE, TODAVIA A PRIVACIDADE É UMA ESCOLHA. A CONVIVER COM DESAGRADAVEIS, PREFIRO SEM HESITAR, A MINHA COMPANHÍA.-LIVROS E MUSICAS SÃO EXCELENTES COMPANHÍAS, ATÉ A PROPRIAMENTE DITA CHEGAR.

  6. Ótimo!

    Realmente o egoísmo tão exagerado de nossos dias é fragmentador, bem como as dependencias amorosas e relacionais de nosso tempo. Aquele que sabe construir a si mesmo é visto com certo desdém pelos outros, que utilizam de inúmeras artimanhas para não estarem sós.

    Belo texto!
    Abraços!

  7. Olá Ludmila,

    Obrigado pelo comentário e por nos acompanhar.

  8. Muito lúcido texto.

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