A morte

A morte

Este é um dos assuntos que na atualidade nos assusta, muito embora em civilizações remotas a morte tenha sido encarada com muita naturalidade, a exemplo das civilizações egípcia, chinesa, romana, entre outras. Neste artigo, abordaremos a morte por dois aspectos: o biológico e o filosófico.

Porém, antes, vamos fazer algumas considerações acerca do nosso medo da morte, ou melhor, por que razão nós temos esse medo.

Para encontrarmos a resposta a esta pergunta, temos que nos reportar aos nossos valores de vida, ou seja, em quais valores calcamos a nossa existência. Não será surpresa se descobrirmos que praticamente todos os nossos objetivos de vida no mundo atual estão direcionados à obtenção de fama, status social, beleza física, bens materiais, posse em geral de pessoas e coisas. Sendo assim, nada mais lógico do que termos muito medo da morte, pois ela significa com certeza o fim no que se refere aos valores elencados.

Pois bem, imaginemos agora se nossas vidas fossem calcadas em valores espirituais como: a virtude, a elevação de consciência, a prática do bem, o amor, a justiça, a fraternidade universal – valores perenes, que jamais se desgastam diante do tempo, pois são atemporais, eternos.

Não se assuste caso sua vida esteja calcada nos valores do primeiro bloco, pois, na atual idade média em que vivemos, não encontramos estímulos para nosso lado espiritual; muito pelo contrário, praticamente somos bombardeados a cada instante por estímulos à beleza física, ao poder, aos prazeres do corpo, sensualidade, e outras coisas fúteis e vazias que bem conhecemos. No entanto, precisamos estar alertas para não sermos tragados por este modelo falido que tem produzido loucos e suicidas de todos os gêneros e, para isso, precisamos desde já iniciar um trabalho no sentido de exercitar nossos valores espirituais, elencados no bloco acima.

Trazendo nosso enfoque para a morte biológica, podemos afirmar que ela se processa a partir do desprendimento da alma, juntamente com nossos corpos mental e emocional, do corpo físico. Neste instante, nosso corpo físico inicia um processo de decomposição, que nada mais é do que seu retorno à origem, ou seja, ao próprio planeta Terra. Juntamente com a alma, por um bom tempo ainda, permanecem o nosso corpo emocional e mental, que continuarão a ter emoções e pensamentos até um momento em que estes também se decompõem e retornam para o seio da mãe Terra ao qual pertence; entretanto, restará nossa essência divina, a chispa, ou seja, quem exatamente somos para prosseguir nosso caminho evolutivo.

A morte física é apenas uma das polaridades da dualidade de tudo o que é manifestado: ora estamos vivos para o mundo da matéria e mortos na dimensão espiritual, ora estamos mortos na matéria e vivos na outra dimensão, a qual podemos denominar de quarta dimensão, muito embora existam outras.

Toda a emanação divina, seja ela do mais denso ao mais sutil, possui duas polaridades: dia e noite, positivo e negativo, masculino e feminino, etc.. A morte e a vida também são polaridades, a exemplo de tudo o que há na natureza, e dentro de cada polaridade da manifestação tudo também é dual, ou seja, também existirão polaridades (Yin e Yang). Exemplificando melhor; mesmo sendo a vida na Terra uma das polaridades, tudo o que aqui existe, tudo com que temos contato a partir da vida, também é dual, de forma piramidal, desde a matéria mais densa e diversificada até a origem da manifestação.

Se de fato acreditarmos nesta lógica que nos impõe a natureza, não há porque temermos a morte, pois ela nada mais é do que uma passagem, um renascimento em outra dimensão, onde alguém certamente nos aguarda para nos acalentar e nos ajudar. A exemplo do que nos ocorreu no nosso nascimento neste mundo, nada muda, exceto nossa relação física com a matéria, em face da perda dos nossos corpos físico, vital, emocional e mental, que como disse, ocorrem de forma gradual.

A morte biológica vista pelo ponto de vista filosófico não deve assustar aos vivos e sim aos próprios mortos que estão fisicamente na Terra.

Para entendermos melhor esta afirmação vamos nos perguntar: o que de fato é estar vivo do ponto de vista filosófico?

Estar vivo para um filósofo é fazer o que deve ser feito, tendo em vista o referencial de valores transcendentes, que nada mais são que os valores do espírito, da alma que não se decompõem, que não se dividem, da alma imortal que de fato somos. Como disse o mestre Jesus: “não se pode servir a dois senhores ao mesmo tempo”. Portanto, ou vivemos para os prazeres do nosso corpo, segundo as tendências do corpo físico, vital, emocional e mental, ou vivemos pela alma. Temos o poder de escolha, o livre arbítrio, e estar vivo para o filósofo é exatamente optar por viver referenciais voltados à alma, que são perenes, eternos, e, contrário senso, estar morto é viver com os referenciais voltados à personalidade, aos nossos corpos. Digo corpos para desiludir os intelectuais que podem até não dar mais importância ao corpo físico do que ele tem, mas podem estar escravizados pelo corpo mental, buscando a intelectualidade pela soberba, pelo egocentrismo, a intelectualidade egoísta e vazia que falseia a sabedoria, que não vem seguida de ações altruístas, desprendidas de frutos egoístas, enfim, do conhecimento pelo conhecimento. Tanto um quanto outro são escravos do corpo.

Não quero com isto dizer que os corpos são ruins, mas também não são bons: o que os fará ruins ou bons será o uso que faremos deles. Por isso, o discernimento vem da alma imortal. Aí mora o verdadeiro livre arbítrio, aquele que pode determinar entre estar vivo ou estar morto. Portanto, há muitas pessoas que, ainda que estejam vivas biologicamente, estão mortas filosoficamente, e podem permanecer assim por muito tempo. Muitas ainda desencarnam sem se dar conta disto, por terem acreditado que estavam vivas durante todo o tempo que permaneceram na Terra, e esta ignorância é a causa da morte da alma.

Esta morte sim devemos temer, pois ela nos toma energia, nos faz sofrer, girar em círculos através de inúmeras reencarnações – esta é a verdadeira morte. Por isto, o grande filósofo Sócrates, filho de uma parteira, dizia que tinha a mesma profissão que a mãe, pois a mãe, como parteira de corpos, ajudava no nascimento dos homens no mundo material, e ele, como um parteiro de almas, ajudava no segundo nascimento do homem, o nascimento ao mundo espiritual.

Assim sendo, precisamos rever nossos valores, nosso referencial de vida, e se com isto você chegar à conclusão que está morto, não perca tempo, inicie seu parto o quanto antes.

A filosofia é o fórceps sutil.

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