A Carência

A Carência

A Carência

 

A vida parece ficar mais leve e colorida quando temos o apoio de alguém do nosso lado. Amar e sentir-se amado ajuda em nossos trabalhos, melhora nossa qualidade de vida e nossos relacionamentos. Sentir-se amado parece ser a fórmula para resolver nossos problemas; contudo, na contramão da nossa vida, poderá surgir a falta desse amor: a carência!

 

Infelizmente, muitos de nós já sofremos, temos sofrido ou ainda sofreremos os efeitos malévolos desse sentimento, se assim podemos chamá-lo. Quem já não presenciou histórias de alguém que – por estar vivendo um período de carência – buscou ser amado(a) a qualquer preço, na tentativa de suprir o amor que não consegue encontrar em si mesmo?

 

Porém, raras vezes paramos para analisar as raízes da carência e o porquê, nos dias de hoje, as pessoas estarem cada vez mais carentes, seja no campo material, seja no campo emocional.

 

No campo material, mendigamos cestas básicas, aumento salarial, e ajudas de toda a sorte, no campo emocional imploramos por atenção, por carinho e amor. Entretanto, será que esta é a verdadeira face do homem integral?

 

Uma frase do grande filósofo estóico Sêneca chama-nos a atenção quando  diz:

 

“ Um filósofo basta a si mesmo”.

 

Num primeiro momento podemos entender esta frase como pedante, porém seu verdadeiro sentido remete-nos ao que deveria ser um homem integral: aquele que não tem carências.

 

Podemos aprender muito com a natureza. Observando os animais no seu “habitat” natural, percebemos que não vivem em carência, obtêm seu sustento e satisfazem suas necessidades agindo naturalmente, porém, quando observamos o homem, percebemos que não agimos de acordo com essa natureza, infringindo suas leis e somos cobrados por isso.

 

Uma das leis que infringimos com a maior naturalidade é a do “dar e receber”. Muitos mestres que passaram pelo mundo deixaram o ensinamento desta lei. Mostraram-nos que somente colhemos o que plantamos, que devemos dar para poder receber, que devemos ser como os pássaros que agem naturalmente e por isso não lhes falta nada. Todavia, ainda não aprendemos, pois agimos totalmente contrário a isso, tornamo-nos egoístas ao extremo; pensamos somente em nós; buscamos receber, ter, ser o centro; queremos mais e mais, porém nada queremos doar.

 

Diante de oportunidades de nos doarmos, nunca temos tempo, não dispomos de dinheiro para algo ao qual não vemos um retorno imediato, não conseguimos agir sem interesse próprio, ou seja, vivemos uma vida egoísta, que nos isola mais e mais a cada dia, separando-nos do Universo.

 

Agindo desta forma é que nos tornamos carentes, pois a carência nada mais é do que o afastamento da nossa própria essência, quanto mais deixamos de ser humanos, mais manifestamos carência. A contrário senso, quanto mais agimos conforme a Lei, ao que deveríamos ser, mais nos preenchemos.

 

O antônimo de carência é o amor, somente o amor tem o poder de preencher nossas carências, não pelo amor recebido e sim pelo amor doado.

 

O budismo tem uma máxima que nos ajuda a esclarecer melhor a causa da carência e como solucioná-la.

 

“ Devemos doar aquilo que mais nos falta”

 

Ocorre que, na nossa cegueira egoísta, deixamos de perceber que paramos de doar. A cada dia mais, o homem restringe-se a pensar somente em si mesmo e agir conforme isso e, quando adota este comportamento, deixando de amar aos demais, afastando-se da sua própria natureza, torna-se um “buraco negro”,  insuportável, já que seu comportamento restringe-se a pedir e a cobrar aquilo que entende por merecer ou, ainda, querendo comprar a companhia do outro.

 

Jamais se consegue preencher a carência de alguém cedendo aos seus pedidos, pois quanto mais damos mais será exigido, até aprendermos que a carência somente se preenche de dentro para fora e não de fora para dentro, ou seja, doando-se através de atos de amor.

 

Em alguns relacionamentos, o carente anula sua vontade diante do outro, colocando-o num pedestal e fazendo dele o “sol” da sua vida. Doa-se inteiramente a este, abrindo mão de sua própria vida apenas para viver em função da pessoa que julga poder suprir suas necessidades. Família, amigos, trabalho, estudo e outras atividades vêm em segundo plano, simplesmente para ter mais tempo dedicado à pessoa que acredita ser “seu Sol”. Ainda que perceba neste algum comportamento desagradável, falta-lhe coragem para impor limites a alguns hábitos, satisfazendo-se com a frieza da indiferença.

 

A baixa autoestima ilude-o, fazendo-o acreditar que pior seria se não tivesse a companhia do outro. Acredita que quanto mais fizer pelo companheiro, tanto mais poderá sentir-se amado. Para tanto, chega a sujeitar-se até a maus tratos. No começo, a pessoa – que é objeto da carência – pode até gostar dos carinhos, mimos e tempo dispensados a ela, mas logo se cansará, perdendo o interesse pelo relacionamento. E, na tentativa de conseguir escapar dos tentáculos sufocantes de alguém assim, começará a maltratar aquele que acabou anulando-se.

 

Para evitar sermos carentes, o único caminho é aprendermos a nos doarmos. Doar significa darmos o melhor de nós e, na medida em que doamos sem o interesse de receber em troca, acabamos por receber. Doação é um ato de amor e não de troca, todo verdadeiro ato de amor não objetiva retorno ou qualquer tipo de premiação, ou sequer um obrigado. Quem aprende a amar jamais se verá carente, quanto mais nos doarmos mais preenchidos sentir-nos-emos.

 

A falta de valores altruístas faz-nos carentes, precisamos questionarmo-nos se não estamos vivendo à  margem da nossa própria carência.

1 Comment

  1. Excelente texto que faz almas enchergar horizontes onde a essência e o inteiro do SER se encontra. Namastê! Gratidão!

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